Túnel do Tempo - 1970

Um panorama complexo reina a década de 1970 no Brasil. Por um lado, a aceleração do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), a baixa inflação e a industrialização criam o cenário chamado de "milagre econômico". Em contrapartida, a implementação do Ato Institucional número 5 (AI-5) e os departamentos de investigação e censura reforçam os anos de chumbo no auge da ditadura militar. Aquela situação estava presente em todos os setores da sociedade, e não foi diferente nos eventos realizados no Anhembi.

Com o governo Médici alinhado à política externa aos Estados Unidos, a cultura norte-americana começa a invadir os olhos e ouvidos do brasileiro. Filmes como "O Elo Perdido", "O Túnel do Tempo" e "Jornada nas Estrelas" passavam na TV de todos; nas rádios, canções de R&B, soul, jazz e blues tocavam junto às melodias românticas de Roberto Carlos. Uma das maiores atrizes do mundo, Brigitte Bardot, visitou o país e chegou a morar durante quatro meses em Búzios, no Rio de Janeiro. Em meio a essa absorção cultural, o Anhembi começou a receber seus primeiros artistas internacionais: Alice Cooper, Lizza Minelli, Ray Connif e o icônico grupo Jackson 5.

Irmãos jackson no Anhembi

Em 1974, Michael Jackson, acompanhado pelos membros do Jackson 5, vinha pela primeira vez ao Brasil. Era a última turnê do grupo reunido, que passava por outros países da América Latina, pois no ano seguinte eles deixariam a gravadora Motown e se tornariam The Jacksons. O show ocorreu no dia 13 de setembro no Palácio de Convenções do Anhembi e, curiosamente, não teve lotação esgotada. Tocando músicas clássicas como "ABC" e "I Want You Back", o evento foi gravado pela extinta TV Tupi.

Enquanto alguns artistas cresciam e eram prestigiados, outros não tiveram a mesma sorte. Nomes brasileiros como Chico Buarque, Rita Lee, Gilberto Gil e Caetano Veloso tinham suas produções rotineiramente censuradas e suas ações vigiadas pelo Estado. Isso não os impediu, contudo, de participar da Phono 73, festival de música brasileira realizada no Anhembi.

Phono 73 e a Censura Brasileira

Inicialmente, o evento tinha como objetivo promover os contratos da gravadora. Phonogram (atual Universal). Apesar disso, a natureza política do evento era perceptível. Chico Buarque e Gilberto Gil chegaram a ter seus microfones cortados pela organização, com medo de que a dupla cantasse a recém lançada música "Cálice", que fazia críticas à ditadura de modo perspicaz, com jogos de palavras e polissemia. Apesar dessa proibição, a dupla decidiu tocar a canção. Depois de cinco microfones terem sido cortados, eles desistiram da performance, não sem antes gritarem insultos à censura.

No mesmo contexto, diversos shows de música brasileira foram realizados no Anhembi. Alguns anos antes, o Som Livre Exportação de 1971 levou os principais nomes da MPB da época. Também aconteceu o Carnaval Eletrônico de 1972, onde 100 mil litros de chope foram consumidos por mais de 80 mil foliões, que cantavam as principais marchinhas carnavalescas do período. O Festival de Música Popular teve apresentação de Rita Lee e Roberto Carlos, enquanto a XI Feira da Bondade trouxe Dorival Caymmi e Gal Costa à capital paulista.

Ilustração: Benício

As Grandes Feiras de Negócios

Com foco na industrialização, as multinacionais começavam a chegar ao Brasil em massa. Por essa razão, eventos como a Expo França e Expo Estados Unidos trouxeram as novas tecnologias para serem exibidas no Anhembi, em 1971. No mesmo ano e com sete edições na década aconteceu a Feira de Utilidades Domésticas, ocupando o Pavilhão de Exposições com as novidades para casa.

Já em 1977, a Feira Brasil Export, promovida pelo Governo Federal, buscava divulgar a indústria brasileira para o exterior. Geisel, presidente da época, inaugurou a exposição, que continha mais de 700 produtos brasileiros, incluindo móveis, tecidos, sapatos, máquinas, equipamentos para indústrias e informática, entre outros.

Competições e Entretenimento

Outro evento de relevância na década que merece destaque foi "Quem é o melhor motorista do Brasil" de 1972, competição que teve mais de 58 mil participantes. O Anhembi transformou-se e forneceu a infraestrutura para inúmeros testes como aceleração, frenagem, círculo e baliza.

Em escala mais local, o Anhembi recebeu o Miss São Paulo de 1975 e, por fim, a Arca de Noé, que recebeu mais de um milhão de visitantes. Considerada a primeira feira ecológica do Brasil, cerca de 20 mil animais - sem contar os insetos - foram apresentados em ambientes que reproduziram seu habitat natural, montados sob orientação do Zoológico de São Paulo, o Ministério da Agricultura, o Instituto Brasileiro de Defesa Florestal (atual Ibama) e a Secretaria Especial do Meio Ambiente.

Foto: Agência Vasclo